AMIGOS DO PROFESSOR ZÉ WILSON

quarta-feira, 8 de julho de 2009

REVOLUÇÃO FRANCESA: GOLPE OU REVOLUÇÃO?

RESUMO

Podemos ver no antigo regime as causas para a Revolução Francesa, mas nos perguntamos cotidianamente: que tipo de revolução aconteceu e para quem realmente significou uma revolução. Para a maioria do povo, no seu sentido mais amplo, não houve sequer mudanças, pois o seu dia-dia continuou como outrora. Nesta dissertação estaremos abordando alguns aspectos referentes a esta que talvez seja uma das grandes mudanças esperadas pela sociedade e que ainda hoje causa inquietação entre todos que porventura façam alguma viajem através dos tempos e da leitura.

Palavras Chave: Revolução. França. Ordem social. Tempo. Espaço. Revolucionários. Costumes.

ABSTRACT


We can see in the old regimen the causes for the French Revolution, but in we ask them daily: that type of revolution happened and for who really meant a revolution. For the majority of the people, in its ampler direction, it did not have at least changes, therefore its day-day it continued as long ago. In this dissertação we will be approaching some aspects referring to that she is perhaps one of the great changes waited for the society and that still today cause fidget between that porventura makes some they travel through the times and of the reading.

Key Words: Revolution. France. Social order. Time. Space. Revolutionaries. Customs.

“CBOБOДA! PABEHCTBO! и БPATCTBO! (Svoboda! Ravenstvo! Bratsvo! - Liberdade! Igualdade! Fraternidade!). Os sonhos de todos os revolucionários terão lugar no futuro?” (Schmidt, 2000. p. 204)
Durante todos os tempos, a história é feita de lutas e revoltas, invenções e inovações, golpes e revoluções. Mas nos perguntamos se realmente as revoluções foram revoluções ou apenas houve a troca das elites dominando o cenário histórico. A Revolução Francesa, tão alardeada e comentada está entre nossos estudos como uma das que houve uma troca da classe dirigente, pelo menos durante algum período, pois na maioria do tempo, quem esteve à frente foram elites burguesas.
Segundo o próprio autor, “o que havia de tão extraordinário na Revolução Francesa”, que ainda hoje é tão lembrada e comentada? Será que o capitalismo advindo através da classe burguesa que está à frente da revolução resolveu o problema ou problemas de toda sociedade ou apenas trocou as classes dirigentes na França, tirando a nobreza e colocando a burguesia no poder? O nosso questionamento é quem realmente ganhou com a revolução e hoje, duzentos anos depois, quem pode comemorar e o que temos para comemorar?
A Revolução Francesa talvez tenha vindo pela “vontade de construir um mundo novo, a partir dos escombros” do regime que acabara de cair em julho de 1789, transformando a vida de muitas pessoas, inclusive as mais “comuns ocupadas em seus afazeres diários”.
Como nós somente aceitamos as coisas como naturais, talvez possamos acreditar, à primeira vista, que houve uma “transformação fundamental da vida cotidiana, mas poucos de nós conseguem realmente entendê-la”, pois “aceitamos o mundo tal como ele se apresenta e não conseguimos imaginá-lo organizado de outra maneira.
Há no momento da revolução uma mudança que poderíamos dizer estrutural, com a “derrocada de toda uma ordem social”, vigente desde o advento da modernidade, mas que infelizmente apenas trocam as elites no poder, pois o povo em geral, como o conhecemos no nível de senso comum, não está à frente desta revolução, mas como coadjuvante. É por isso que nos perguntamos: será que houve de fato uma mudança ou revolução?
Em conformidade com o autor “os franceses não tinham um grande vocábulo político”, pois os termos “esquerda e direita derivam da disposição dos lugares na Assembléia Nacional”.
Com a experiência revolucionária se cria a noção de “tempo e espaço” quando os revolucionários dividiram o tempo em unidades que lhes pareciam reacionais e naturais”. Podemos dizer que há então uma transformação e tudo aquilo que era velho ou que pertencia ao Antigo Regime, conforme nos descrevem os revolucionários, precisaria ser mudado. Os dias da semana passam a ter uma conotação matemática e a agronomia veio “substituir os santos do calendário cristão”, dessa forma adequando o tempo “ao ritmo natural das estações”.
Há mudanças no sistema métrico como uma tentativa de “impor uma organização racional e natural ao espaço”, mas sabemos que os cidadãos comuns pouca importância davam para essas transformações, pois em poço ou quase nada mudavam suas vidas. Mesmo que os velhos costumes permanecessem entre a maioria da população, os revolucionários continuam renomeando as coisas, tentando imprimir novas idéias a cerca do tempo e espaço, inclusive colocando novos nomes nas ruas e até em seus próprios nomes. “Os revolucionários começaram a alterar tudo: as louças de cerâmica, o mobiliário, os códigos jurídicos, a religião, o próprio mapa da França”, mas ainda continuamos nos perguntando se houveram mudanças que viessem para melhorar a vida da maioria ou se simplesmente essas mudanças eram apenas para se mostrar que algo de novo estava acontecendo. O que mudou na prática?
Segundo o que o autor descreve, a Revolução desencadeou “uma força nova, o nacionalismo”, mas mesmo assim “não varreu tudo que tinha pela frente”, pois, “não conseguiu impor a língua francesa à maioria do povo francês”, que continuava falando os mais diversos dialetos entre seu povo simples.
O espaço público acaba invadindo o espaço privado, “introduzindo-se nas relações mais íntimas”.
Com a mudança nos costumes, inclusive nas formas de tratamento entre as pessoas, “eles queriam construir uma nova sociedade baseada em novos princípios de relações sociais”.
Como todas as mudanças advindas após a revolução, as roupas sofreram conseqüências que se remetem até os dias atuais e que serviam também como “termômetro político”, pois os “revolucionários adotaram um termo da indumentária: sans culotte”. As próprias roupas femininas sofrem alterações após a revolução, assim como a própria moda que passa a vir de baixo e não mais da corte como era o costume até então.
“No auge da revolução, a virtude não só estava na moda”, mas era ingrediente da “nova cultura política”, sendo, portanto, uma coisa viril, significando “uma disposição de lutar pela pátria e pela trindade revolucionária da liberdade, igualdade e fraternidade”.
Podemos dizer com isso que esse culto à virtude gera uma “revalorização da vida familiar”, pois há um caráter sagrado da maternidade e torna-se importante a amamentação e a procriação como se isto fosse um dever cívico, um compromisso com a pátria. O Estado nasce como uma nova base moral para a família, já que a religião havia ficado para segundo plano ou até mesmo rejeitada. Com isso algumas mudanças na vida cotidiana são apresentadas, como a autorização do divórcio, o reconhecimento legal de filhos tidos fora do casamento, a abolição da progenitura, dando uma nova configuração para a vida familiar e para a propriedade, pois todos os filhos agora passam a ter direitos na herança, descaracterizando o despotismo do pai sobre a família e sobre os próprios filhos ou ainda do filho mais velho sobre os irmãos consangüíneos.
Podemos notar como uma mudança significativa a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, principalmente na afirmação de que “todos os homens nascem livres e iguais em direito”.
Ainda segundo o autor, é possível notarmos “algumas lacunas e contradições na legislação revolucionária”, pois os “legisladores nunca pensaram em nada parecido com o socialismo”, apenas substituindo a “igreja pelo estado como a autoridade suprema na condição da vida privada”, legitimando o Estado na soberania do povo. Houve, portanto, apenas uma troca de valores e costumes. Aquilo que era “velho” passa a ter uma nova configuração, apenas substituindo no novo regime as instituições que reprimiam no antigo Regime.
Conforme o autor, par aos franceses do Antigo Regime, a liberdade era tida como um privilégio, era poder fazer aquilo que era negado para as outras pessoas e os reis eram tidos como ungidos e agentes de deus na terra, tendo seu poder tanto secular quanto no espiritual. Os filósofos do iluminismo questionam esses pressupostos.
Podemos dizer que com todas as adversidades que vivemos, nos dias de hoje, com toda violência, assaltos, seqüestros, roubos, guerras, assassinatos, “nós vivemos num mundo onde a violência foi retirada de nossa experiência cotidiana”, pois tanto no medievo quanto na modernidade a violência estampada era muito maior que em nossos dia. A revolução nasce dentro deste mundo inóspito, de violência, imprimindo seus princípios num mundo violento. Os revolucionários destroem, com a Queda de Bastilha, não apenas o símbolo do poder despótico, pois queriam destruir tudo que lembrasse o Antigo Regime. E isso tudo é violência ou justiça?
Acreditamos que houve uma fase de enorme terror, já no nascimento da modernidade, mas que talvez fosse necessário para acabar com o Antigo Regime e em nome de uma limpeza profunda na terra, uma “versão laica do Juízo Final”. Segundo o próprio autor, essa “violência foi um mal necessário, porque o Antigo Regime não deixaria pacificamente de existir e a nova ordem não conseguiria sobreviver sem destruir a contra-revolução”. A violência abre novos caminhos para a reconstrução e transformação, atingindo as instituições do Antigo Regime, libertando uma energia há muito contida dentro destes seres que se propõem a fazer a revolução por completa.
Quando a violência está instaurada, um deputado da Assembléia levanta a questão de que tudo isso acontece simplesmente porque há um certo faccionismo, derivando todos os seus problemas, o que de imediato fez com que os nobres da Câmara se abraçassem e se beijassem, como se suas diferenças tivessem se acabado e a partir de agora todos vivessem uma fraternidade eterna. Isto seria realmente seguir o velho lema revolucionário Liberté, Ègalité, (Solidarieté) Fraternité. Sabemos claramente que isto não aconteceu, porque pouco tempo depois todos voltavam às contendas entre eles.
Este fato infelizmente está esquecido por grande parte dos historiadores, que não comentam em seus livros e nem sequer em artigos. É algo curioso que ocorre durante esse período de tanta violência, como se a mesma fosse amainada por simples abraços e beijos. Parece algo bem burguês, tentando esconder a realidade deste momento entre os nossos nobres companheiros jacobinos.
A revolução tenta eliminar as distinções feitas entre as classes, os grupos, as categorias, mostrando que realmente poderíamos viver em igualdade, fraternidade e liberdade, só que esses momentos passam muito rapidamente, principalmente sob a luz de nossos olhares contemporâneos, tão acostumados com as diferenças como se estas fossem naturais e não apenas produtos de nossa cultura ou “nossas culturas”. Um povo se volta contra seu algoz e nos mostra ser possível fazer as leis e viver segundo elas, transformar a vida cotidiana, onde a constituição seria capaz de pregar ou mesmo decretar a liberdade, a solidariedade e a igualdade e, além disso, “viver de acordo com o mais difícil dos valores revolucionários, a irmandade entre os homens”.
Este nosso estudo nos mostra que poderíamos ser capazes de viver livremente, simplesmente como irmãos, fazendo nossa história, como a fizeram os verdadeiros revolucionários franceses, à duzentos anos. Os ideais dos velhos revolucionários por liberdade, igualdade, solidariedade e fraternidade ainda continuam, pois não alcançamos aquilo que eles queriam, mas as utopias humanas alimentam nossa alma com os sonhos de uma sociedade justa, fraterna e solidária.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DARTON, Robert. O beijo de Lamourette (mídia, cultura e revolução). São Paulo: Cia das Letras, 1990, p. 23-36

RODRIGUES, Renato; GONÇALVES, José Correia. Procedimentos de Metodologia Científica. 3 ed. Lages: PAPERVEST, 2005. 148 p.

SCHMIDT, Mário Furley. Nova História Crítica: moderna e contemporânea – Ensino Médio. São Paulo: Nova Geração, 2000
. p. 95-105

Nenhum comentário:

Postar um comentário